a depressão é ingrata
e foi banalizada
esse assunto surge em quase toda sessão das terapias que eu faço: como reconhecer a depressão como uma doença? se eu estivesse com um membro fraturado e engessado, as pessoas me mandariam sair da cama, apesar da dor? acho que por reconhecer uma ferida visível, galera tem mais empatia. o acontece quase zero com uma doença mental - que vem sendo banalizada e minimizada — qualquer tristeza vira depressão, e qualquer sensação de ansiedade se transforma num transtorno.
teve aquele vídeo do chá revelação de transtorno mental e quando eu vi, eu me senti tão tão ofendida. foi uma representação tão insensível do que significa viver com uma doença mental. por mais vezes que eu gostaria, minha depressão me paralisa, me consome, me deixa de cama, apenas sentindo nada nada nada a não ser de tristeza pra baixo. não tomo banho, não como, não escovo o dente. existo porque é o que tem pra fazer. por vezes me faz chorar, sozinha, soluços grandes e desesperados e uma desesperança profunda. espero, em dor, que esses dias acabem.
a depressão é uma doença ingrata: se não consigo sair da cama, sou julgada, chamada de preguiçosa, puxões de orelha pra eu arrumar logo um emprego, não importa quão mal eu esteja, quão forte as cicatrizes do meu pulso estejam — eu nunca estou mal o suficiente. nunca é depressão, é só preguiça e falta de força de vontade.
se, apesar da dor, do vazio, do caos, das lágrimas, dos cortes, das overdoses, das idas à emergência de forma preventiva, do abuso de alcool, de se colocar em risco de forma proposital e consciente, se ainda assim, você aparece em público limpa, sorri, acena e conversa — então não está depressiva o suficiente.
não consigo entender quem festejaria viver dessa forma.
falo bastante sobre meus dias ruins, porque acho que compreender o que realmente vivemos é um passo para a empatia. e também porque acho que o instagram já está cheio demais de vidas perfeitas e a gente precisa de um puxão pra realidade. ninguém ta bem, mas falta sensibilidade da nossa parte para reconhecer e acolher a dor do outro.

É mais fácil culpar o indivíduo e minimizar os sentimentos da pessoa, do que ter paciência e empatia. Apoio 100% com o texto
essa reflexão é uma perfeita representação do que senti, e ainda sinto, as vezes. Como essa doença é incurável, por mais que eu não esteja no vale que já estive, ainda recebo a falta de empatia das pessoas em pequenos momentos. Doenças físicas são difíceis também. Mas os que padecem das dores da alma, sofrem de algo que não pode ser consertado, e muitas vezes, não é nem considerado.