mãe
ainda tenho muito a te dizer
no seu aniversário do ano passado, a gente saiu pra almoçar, do jeito que você gostava. sentada à sua frente na mesa do restaurante, vi o quanto você reluzia, um pouco modesta, pela celebração pública da sua vida. foi ali que pensei que iria fazer uma festa pra comemorar os seus setentas anos. não cheguei a desenvolver, mas eu sabia que teria um tema, que conversaríamos com uma médica para que você pudesse beber suas caipirinhas, e que ninguém poderia ficar no seu pé pelo que você escolhesse comer.
70 anos, né mãe. precisava ser especial. você se foi 20 dias depois. imortalizada nos 69, rezando o terço deitada no sofá da sua sala, a expressão tranquila de quem estava dormindo. a sopa que você tinha feito no dia anterior ainda estava no fogão. o gatite me recebeu meio confuso, meio aliviado. imagino que ele tenha te cutucado com as patinhas, dado cabeçadas na sua mão, e não conseguiu entender o por que você não respondia a ele. ou ele entendeu sim, a questão é que ele não gostou. fomos viver juntos, eu e ele, e nós dois entramos em um processo de dor e saudade que eu não acho que existam palavras capazes de descrever. eu nunca tinha perdido ninguém próximo, e perder logo você tirou meu chão. minhas paredes. a fundação da minha casa.
eu, que morei fora por tanto tempo que me sentia rasgada ao meio, com pedaços espalhados pelos lugares onde amei e fui amada. que achava que o conceito de lar era transitório, caleidoscópico, mutável, difuso, não me atentei aos sinais claros, de como dormia melhor e profundamente na sua cama, como se meu corpo reconhecesse aquilo que minha mente ainda não sabia. que me sentia abraçada e segura ao sentir seu cheiro, e que me encaixava em qualquer molde que saísse da sua boca na palavra ‘filha’. ao ver suas coisas embaladas, seu sofá sendo carregado para fora do apartamento, fui profundamente ferida pela ideia de que existe gente na vida que não vai conhecer o tom da sua voz, nem vai vivenciar uma cena de drama e pirraça sua.
fui profunda e irremediavelmente ferida pelo silêncio da sua ausência. não existe mais ruído de fundo com o tom dos seus monólogos, panelas batendo, você respondendo aos apresentadores da televisão, suas risadas enquanto ouvia um audiobook no fone. não existe mais ligações no meio do dia para que uma fofoca seja contada. não tem mais você perguntando pelos gatos, se esforçando pra entender meu trabalho, pedindo pra eu explicar o que é comunismo pra que você possa se apresentar como uma. não tem mais hino do flamengo no seu parabéns. essa sexta feira, dia oito de agosto de 2025, não vai ter você, e nenhuma outra em nenhum outro ano que virá. eu vou te comemorar mãe, porque sua vida cabe na eternidade e porque você resiste e persiste no amor que deixou espalhado por aqui.
mas eu vou sofrer, mãe, porque tudo que eu queria era seu colo e a infinidade de tempo que eu achei que teríamos juntas para celebrar nossas conquistas. vou sofrer porque vou deitar com dor e lágrimas, mas sua presença na cama me confortando e me mantendo segura agora não passa de um desejo secreto que sussurro pro escuro enquanto me encolho para impedir que a imensidão da saudade, dos e se's e dos arrependimentos vazem por aí, devastando tudo ao redor com sua intensidade.
persisto, mãe. estranhamente mais forte, previsivelmente mais vulnerável, e eternamente com saudade.
