sem título
Oi Thiago, você lembra de mim?
Eu tinha 12 anos quando a gente se conheceu, você tinha acabado de se mudar com sua família para a Rua Tomás Lopes, 293, a duas ruas de distância da minha. Você tinha começado recentemente a andar com os “meninos lá da rua” (mais sobre essa instituição eventualmente, mas você sabe quem são né?) e, junto com eles, ficava no meu portão depois do futebol. Eu era muito muito nova e ingênua naquela época mas os meninos me falaram que você gostava de mim, e eles falaram tanto, que eu achei que era hora de deixar a infantilidade para trás, mas você sabia que eu ainda brincava de boneca quando a gente se conheceu?
Numa das festinhas que rolou lá na rua, você falou que queria ficar comigo e a gente foi para a esquina escura da Rua Helvétia - eu estava apavorada! Eu nunca tinha ficado com ninguém, nunca tinha beijado na boca e ali estava eu, com um garoto três anos mais velho que eu! Eu lembro a camisa que você estava nesse dia - azul clara, cor de piscina, com uma listra branca rodeando na altura da cintura. A gente não se beijou nesse dia - aliás, começamos a namorar sem nem ter beijado, você lembra? O primeiro beijo rolou no meu sofá, e eu odiei. Claro que não te falei isso, eu achei que a culpa era minha, afinal eu era tão inexperiente. E infantil, vale a pena relembrar.
A gente começou a namorar em Junho, né? Eu fiz 13 anos em Julho. Você sumiu no dia do meu aniversário e chegou atrasado na minha festa, e eu estava com muita, muita raiva. Mas você me deu um livro de presente e disse que se atrasou porque estava procurando por ele - talvez essa tenha sido a primeira mentira, mas honestamente, foram tantas que eu perdi a conta. O livro era O Diário da Princesa - A Princesa Apaixonada.
Aliás, por falar em sumir, você sumiu várias vezes. Lembro de ligar para a sua casa e você nunca estar, e depois eu ligar de novo e chamar e chamar e chamar e ninguém atender porque provavelmente alguém desconectou a linha para não ter que lidar com uma criança descontrolada. Você saía com os meninos para lugares onde nunca me levou, porque é claro, você queria ficar com outras. Foram tantas vezes que eu normalizei, era só mais um fato na nossa relação.
Lembra de um moletom azul que você tinha e eu adorava? Eu queria ele pra mim, mas você nunca deu, nem emprestou. Uma vez eu reparei que fazia muito tempo que você não o usava e te perguntei sobre ele, e na maior tranquilidade, você respondeu que uma menina da sua sala tinha caído na piscina e você deu o moletom para ela. Eu realmente senti como se tivesse tomado um soco no estômago, mas naquela altura (curta) do nosso relacionamento, eu já tinha aprendido a não te contrariar. Não falei nada, eu sabia que eu se mencionasse algo, a culpa seria minha no fim.
Nossa, por falar em culpa! Teve aquela vez que eu falei que eu estava tendo dificuldade na aula de Química e você ofereceu um livro seu para eu estudar. Daí na primeira página do livro tinham vários recadinhos de outras garotas para você, e eu morri de ciúmes, fumeguei. Queria entender o porquê você deixaria eu ler aquilo, o porquê você me emprestaria, mas ao invés de fazer um escândalo, eu apaguei. E quando você foi buscar o livro, você enlouqueceu! Brigamos feio no portão da minha casa e você me fez pegar um lápis e reescrever tudo. Enquanto eu fazia isso, morrendo de medo de você, você ria com deboche. Eu tive tanta vergonha de mim nesse momento que eu nunca contei isso para ninguém, até perceber que quem tem que ter vergonha é você.
Aaaah, teve aquela vez que eu fui no show do Imaginasamba com minha mãe no Mello, e você ficou puto. Não queria que eu fosse, mas eu fui mesmo assim. E aí um cara me agarrou a força e me beijou, e eu escrevi no meu diário sobre isso - sobre como me senti violada e como foi horrível, e você leu escondido de mim e terminou comigo, porque a culpa tinha sido minha. E por um momento me senti muito aliviada de você terminar, mas parecia que eu tinha obrigação de te procurar. Eu escrevi até uma carta, e enviei a letra de uma música d’Os Travessos - eu nunca mais consegui ouvir essa música. Ela me lembra o quão traumatizada e frágil você me deixou. A gente tinha seis meses de namoro nessa época - quase nada para eu já estar tão apavorada por você.
Teve uma festa no prédio do Anderson que você queria ir mas não queria que eu fosse porque todos os meninos da rua iam estar lá, e eu ia te atrapalhar. Lembra dessa??? Ninguém entendeu o motivo de eu não ter ido, ou entenderam sim, você deve ter contado. A esse ponto, era bem óbvio que você mandava e desmandava em mim, e eu fiquei sentada no escuro, no carro do meu pai que estava na garagem, esperando você decidir que já tinha se divertido sem mim e ir me ver.
Uma vez, a gente estava sentado no quintal da minha casa em cadeiras de praia, e eu estava usando um moletom cinza com cordinhas no capuz, e você quis apertar a cordinha para ver até onde eu aguentava - e eu desmaiei. Acordei na cadeira de praia com você pálido de desespero - achei que fosse preocupação comigo, mas a primeira coisa que você falou quando acordei foi “não conta pra ninguém!”. Claro que eu não ia contar, se você me enforcou até desmaiar por nada, imagina o que faria se eu te contradizesse?
Lembra quando você foi ver pornô escondido na minha casa? Mas você era tão burro! Não deletou o histórico, sequer abriu uma aba anônima. E eu vi que você estava vendo pornografia infantil e tive tanto nojo de você. Mas eu também tinha tanto medo. Você me afastou de todas as minhas amigas, quis que eu acreditasse que estava só e só tinha você. Mas um dia eu te encontrei na rua com outra menina - estava você, o Renan, o Bruno e o Rafael. E quando você me viu, você entrou em pânico. Todos vocês tentaram esconder que você tava com ela. Eu nem tive reação, eu já nem me importava mais. Nessa época, eu lembro de querer morrer num acidente ou de pelo menos sofrer algo tão grave que eu perdesse a memória e nunca mais tivesse que pensar em você. Pensei também em algo que me debilitasse tanto que te forçaria a me abandonar - você consegue se ver sendo suporte de alguém? Dá até vontade de rir.
Muito rápido, você quis transar. Eu não queria, me achava muito nova pra isso, e não achava que era a hora. E lembro de você conversar sério comigo sobre isso: entendia eu não querer, mas você era homem e precisava disso, portanto se eu não fizesse com você, você ia procurar quem fizesse na rua. Mas seria só sexo! A gente ia continuar namorando porque você me amava muito. Foram semanas me chantageando, me colocando contra a parede. Eu cheguei a cogitar isso: “vai transar com alguém na rua e me deixa em paz”, mas mais uma vez, tive medo.
Uma tarde em que minha mãe e meu pai não estavam em casa, você foi lá. Eu disse que não queria, mas você forçou. Violentou minha vontade, meu corpo, minha inocência, minha fragilidade. Gozou dentro quando eu tinha 13 anos! Imagina se eu engravidasse? E quando você acabou, você levantou, se vestiu, deu um sorriso vitorioso na porta da sala e saiu, provavelmente para contar para seus amigos o que você tinha feito. Você sempre contou, sempre me expôs ao ridículo, à humilhação - fosse em privado ou, seu preferido, em público. Fiquei lá naquele colchão no chão, com sangue e dor, humilhada e sozinha, sem saber o que fazer. Como contar isso pra alguém? Ninguém ia acreditar, afinal, você era meu namorado. Além do mais, eu tinha tanta vergonha das coisas que você fazia comigo que não contava para ninguém o quão abusivo e cruel você sempre foi.
Depois disso, várias vezes foram forçadas. Incontáveis vezes que eu fingia que gozava só para acabar logo. E você saía e contava para os meninos, que faziam “piadinhas” comigo toda vez que me viam. 13, 14, 15 anos e minha vida sexual e abusiva exposta para um bando de garoto que nunca questionou minha segurança.
Meu aniversário de 16 anos foi o mais especial da minha vida, porque foi o dia que eu terminei com você. Deve ser por isso que eu comemoro muito, até hoje. Foi um marco muito importante, um livramento. Cercada pelas minhas amigas, amada pelas minhas amigas, amparada pelas minhas amigas. Você me perseguiu, cuspiu na minha cara, invadiu minha casa, me humilhou, quase me agrediu em uma festa. Eu ia te denunciar, mas seus pais pediram, imploraram, porque você tinha acabado de passar para o Aprendizes de Marinheiro e eu ia estragar seu futuro (rs). Além do mais, você ia passar um ano longe, e não era isso que eu queria? Não denunciei. Essa é a decisão que eu mais me arrependo na vida, ver você impune e vivendo como se não tivesse aberto uma ferida em mim há mais de 20 anos, e segue como se nem soubesse que está num ringue de luta. Mas eu luto todos os dias contra você e contra as dores que você me causou, e isso não é justo.
Eu sei que você tem filhos e eu morro de medo por eles. Eu espero que você não seja tão cruel a ponto de abusar deles, mas isso não sai da minha cabeça sabe? Os sites de pornografia infantil continuam voltando em flashes. Eu quase te denunciei. Você sabia que tem uma lei que permite que pessoas denunciem seus abusadores até 20 anos depois do ocorrido? E que quando o abuso acontece antes dos 18 anos, esse prazo só começa a contar quando a vítima completa 18 anos? Eu tinha tudo pronto, estava disposta a ir ao Brasil, disposta te enfrentar se fosse preciso. Morro de medo da minha reação, mas estava disposta. Queria que esse abuso todo fosse registrado, que as pessoas ao seu redor te conhecessem de verdade - se é que não conhecem. Queria tanto que você sofresse!
Ah, caso você esteja aí pensando naquele intervalo do Aprendizes de Marinheiro que você voltou ao Rio de Janeiro e eu topei te encontrar e prometi que a gente ia ficar junto quando você voltasse, espero que seu ego não seja grande a ponto de você não ter percebido que eu estava te manipulando. Porque eu estava. Eu queria muito minha vinagança, e por um tempo me achei uma pessoa horrível, quase comparável a você, mas hoje acho que fiz tão pouco.
Eu odeio você, Thiago. Odeio no que você me transformou enquanto estivemos juntos, e odeio todos os traumas que você me deixou. Odeio lembrar de você - felizes são os dias que você não cruza minha cabeça, que as cicatrizes não ardem, que a humilhação não queima. E eu quero que o mundo te odeie também, por abusar de uma criança, por ser uma pessoa cruel e manipuladora, egoísta, uma pessoa ruim. Eu odeio você.

Te odiamos, Tiago.
Sinto muito, muito, muito, amiga ♡ Se sinta abraçada. Eu me vejo em vc, muitas nos vemos em vc. Os monstros são muitos.